CONTEXTO HISTÓRICO DE GASPAR BERTONI
 
Contexto histórico de São Gaspar Bertoni (1777-1853)

 

ASPECTOS POLÍTICOS

a) Unificação dos Estados nacionais: muitos povos e territórios ainda não estavam organizados em Estados nacionais, como países. Não estavam estabelecidos limites territoriais. Ao contrário, muitas regiões foram palco de conflitos bélicos que objetivavam defender ou conquistar e anexar novos territórios e povos.


b) Absolutismo: as guerras de conquista e anexação de novos territórios e povos geralmente foram encabeçadas por reis, imperadores ou generais que direcionavam recursos económicos e humanos para tais finalidades. Os reis, imperadores e generais absolutistas se mantinham no poder fazendo uso de repressão e violência contra quem se opusesse aos seus objetivos. Os resultados destas guerras foram o elevado número de mortos, mutilados, viúvas, órfãos, de desemprego, de empobrecidos. Não era raro que os povos conquistados pagassem impostos ou se tornassem escravos depois de vencidos. Visto que os interesses da Igreja muitas vezes estavam atrelados aos interesses dos reis, imperadores e generais, durante tais guerras muitas igrejas foram fechadas, algumas congregações religiosas foram temporariamente suprimidas e o atendimento dos fiéis foi prejudicado.


c) Guerras Napoleônicas: 1769 a 1821. Napoleão Bonaparte foi imperador e general francês absolutista que orientou diversas guerras de conquista e anexação de novos territórios e povos ao domínio francês. Para conter as investidas do exército napoleônico, outros exércitos se levantaram, dentre os quais merece destaque o exército austríaco.

d) Revolução Francesa: 1789 a 1799. Não satisfeitos em concentrar em suas mãos apenas o poder económico, comerciantes e industriais também ambicionavam o poder político concentrado nas mãos dos reis e imperadores, que utilizavam o poder para interesses próprios e também para os da aristocracia e do clero. Inspirados na revolução ocorrida na Inglaterra e na independência dos Estados Unidos da América, os revolucionários franceses escolheram como lema "igualdade, liberdade e propriedade privada". Depois de um intenso período de conflitos internos, que também geraram muita violência, os revolucionários burgueses finalmente alcançaram seu objetivo. A Revolução Francesa teve como consequência a proclamação da República na França. Entretanto, a Revolução burguesa na França também resultou numa séria crítica ao modelo monárquico, aristocrático e eclesial e numa compreensão equivocada e interesseira dos valores igualdade, liberdade e propriedade privada.


c) A contestação ao liberalismo: apesar da propaganda burguesa em defesa da igualdade, da liberdade e da propriedade privada, o modelo político liberal sustentado pêlos comerciantes e industriais salientou ainda mais o empobrecimento e a desigualdade social. O liberalismo foi altamente contestado, sobretudo por Karl Marx (Manifesto Comunista, 1848), que propunha como modelo alternativo o socialismo.


f) Chegada dos europeus na América: 1492. A chegada dos europeus no "Novo Mundo" teve como resultado a descentralização das atenções que estavam voltadas particularmente para a Europa. No que se refere principalmente à Espanha e Portugal, houve uma escandalosa exploração dos recursos minerais e humanos de suas colónias na América Latina, o que representou um expressivo empobrecimento latino americano e um enriquecimento europeu.

 


ASPECTOS ECONÔMICOS
a) Passagem do modo de produção feudal para o capitalista:  aos
poucos, grupos de camponeses, cuja subsistência baseava-se sobretudo na produção agrícola, deslocaram-se para regiões urbanas onde predominavam o comércio e o artesanato. Nestas pequenas cidades, passaram a trabalhar e consumir o que produziam no comércio e no artesanato. Ainda que não houvesse incentivos, o comércio desenvolveu-se tecnicamente e pequenas fábricas passaram a produzir em série o que outrora era produzido artesanalmente. O lucro passou a ocupar importante papel nas transações comerciais que, enquanto enriquecia os comerciantes e industriais, empobrecia seus funcionários e desempregava a muitos.


b) Revolução Industrial: 1760 e 1860. Forjada pela burguesia, inicialmente a da Inglaterra, a Revolução Industrial teve como objetivo principal defender e propagar os interesses dos comerciantes e industriais: o lucro, o consumo, o desenvolvimento tecnológico, a concorrência.

 

ASPECTOS SOCIAIS

a) Burguesia: pertencem a esta classe social os comerciantes e os industriais. Embora tivessem nas mãos o poder económico, desejavam também o poder político, concentrado nas mãos dos reis e imperadores, que faziam uso do poder para interesses próprios e também para os da aristocracia e do clero. Os burgueses queriam participar do poder político para defender seus interesses. Aos poucos conseguiram alcançar seu objetivo.


b) Proletariado: os camponeses e artesãos que passaram a trabalhar para os comerciantes e industriais pertenciam ao proletariado. Visto que não possuíam as máquinas (meios de produção), os camponeses e artesãos vendiam sua força de trabalho para os comerciantes e industriais. O que recebiam mal dava para sobreviver. Não tinham direitos e segurança. Muitos eram mutilados durante o trabalho. Eram altamente explorados e empobrecidos pêlos burgueses.


c) Aristocracia: este grupo social era composto pêlos grandes proprietários de terra que atuavam na agricultura e na pecuária. Os interesses dos aristocratas eram defendidos pêlos reis e imperadores, por isso preferiam que o poder político permanecesse nas mãos deles e não nas dos comerciantes e industriais. Não se interessavam pelas lutas da burguesia.


d) Clero: O papa, os bispos e os sacerdotes faziam parte desse grupo social. Ainda que não se possa generalizar, por muitas vezes os interesses do clero estiveram atrelados aos interesses dos reis e imperadores. Por isso, durante as guerras de conquista muitas igrejas foram fechadas, algumas congregações religiosas foram temporariamente suprimidas e o atendimento dos fiéis foi prejudicado. O clero serviu de propagador entre o povo da submissão aos reis e imperadores. O papa, os bispos e os sacerdotes foram alvo de sérias críticas por parte da burguesia. Houve muitos sacerdotes que se identificaram com os ideais da liberdade, da igualdade e da propriedade privada. Muitos aderiram ao estilo de vida burguês.


e) Realeza: pertenciam à realeza os reis e imperadores e sua corte. Não tinham o poder económico mas detinham o poder político. Faziam uso dele para defender interesses próprios e também os interesses da aristocracia e do clero, de quem recebiam apoio ideológico. Recebiam acirradas críticas da burguesia, cujos interesses não eram considerados. Posteriormente são obrigados a dividir o poder político com o parlamento burguês.

 

 

ASPECTOS CULTURAIS
a)    Passagem    do   Teocentrismo    para    o    Antropocentrismo:    por
aproximadamente mil anos, desde que o cristianismo foi acolhido como religião oficial do Império Romano, praticamente toda produção de conhecimento tinha como referência primeira a fé. A organização política, económica, social e cultural era pensada a partir de Deus. O ser humano, por causa de sua condição de pecador, não seria capaz de organizar uma sociedade justa sem contar com as orientações divinas desenvolvidas pela Teologia. Porém, aos poucos percebeu-se que o conhecimento teológico não mais respondia plenamente aos novos desafios e interesses. Então muitos pensadores buscaram responder a estes novos desafios e interesses independentemente das orientações teológicas. As reflexões ganharam autonomia em relação à fé. O ser humano passava a ser a nova referência. "O homem é a medida de todas as coisas".


b) Renascimento: Séculos XV e XVI. Logo os pensadores descobriram que a herança teológica não era apropriada para sustentar ou justificar as reflexões acerca dos novos desafios e interesses. Buscaram então inspirar-se na compreensão de mundo e de ser humano anteriores ao cristianismo, sobretudo dos filósofos gregos da Antiguidade. A primeira providência foi recuperar o valor, a grandeza e a beleza do ser humano, o novo referencial. A natureza e a sociedade também foram estudadas de uma maneira nova, a partir de um modelo experimental científico. Merece destaque a descoberta de que não era o sol que girava ao redor da terra, como defendia a reflexão teológica, mas o contrário: era a terra que girava ao redor do sol. Era o nascimento das ciências.


c) Humanismo/Direitos Humanos: a antiga compreensão teológica de que o ser humano era pecador e, por isso mesmo, dependia estritamente de Deus, precisava ser superada. O contato com a compreensão de ser humano anterior ao cristianismo, principalmente dos filósofos gregos da Antiguidade, ajudou os pensadores renascentistas a recuperar o valor, a grandeza e a beleza humanos. Reconhecida a dignidade do ser humano, não tardou para que seus direitos fossem elaborados e defendidos.


d) Iluminísmo: Século XVHI. Este movimento, que surgiu inicialmente na Inglaterra e rapidamente alastrou-se para outros países, tinha como objetivo fundamental defender a ideia de que apenas o conhecimento
produzido pelas ciências e comprovado através da experiência era verdadeiro. As demais elaborações de conhecimento eram consideradas míticas, supersticiosas, não verdadeiras, inclusive as produções teológicas. A ciência era a luz que deveria iluminar as trevas da ignorância e dos conhecimentos supersticiosos.

 


ASPECTOS ECLESIAIS E TEOLÓGICOS
a) Heresias/Inquisição: a hierarquia e o magistério da Igreja Católica Apostólica Romana sempre se consideraram os primeiros responsáveis e defensores da fé cristã. O contato com culturas e realidades diferentes muitas vezes resultou, segundo o pensamento oficial da Igreja Católica, na má compreensão e transmissão de suas doutrinas. Para defendê-las, a Igreja classificava como heresia qualquer reflexão que as contradissesse. Os pensadores heréticos eram julgados pela Inquisição e, caso não negassem suas teorias, eram condenados à morte. O contexto político, económico, social e cultural estimulou diversas críticas à religião, ao clero, às doutrinas católicas, às reflexões teológicas. Considerou-se a maioria das críticas como heresias.


b) Reformo Protestante e Contro-reforma Católica: Século XVI. As críticas dirigidas à religião, ao clero, às doutrinas católicas, às reflexões teológicas, associadas à cumplicidade de expressivo número de membros do clero com os interesses dos reis e imperadores e da aristocracia, resultaram na divisão dos cristãos em católicos e protestantes. Dentre os escândalos que envolveram o clero pode-se ressaltar a venda de indulgências. O ex-monge agostiniano Martinho Lutero foi um dos grandes representantes do movimento reformista. E importante destacar também que houve grupos protestantes que se separaram da Igreja Católica para formar outra igreja que defendesse os interesses da burguesia. E o caso do movimento protestante inglês. A resposta dada pela Igreja Católica ao movimento reformista foi a chamada Contra-reforma. A hierarquia e o magistério católicos intensificaram ainda mais a defesa e a propagação de suas doutrinas e a preservação de sua identidade.


c) Evangelização do América: a chegada dos europeus na América e a consequente colonização dos povos nativos contou com a presença de missionários católicos requisitados pêlos colonizadores de Portugal e Espanha, países católicos, e enviados pêlos papas. Em terras americanas, os missionários assistiam aos imigrantes e ensinavam as doutrinas católicas aos índios e negros.


A Igreja Católica, preocupada com a expansão do protestantismo, tinha grande interesse de que as colónias portuguesas e espanholas professassem a fé católica. Por isso havia um grande incentivo àqueles que queriam trabalhar na evangelização da América.


d) Perseguição à Iqre.jo Católica: dado que muitas vezes os interesses da Igreja Católica estivessem atrelados aos interesses dos reis e imperadores, as guerras de conquista e anexação de novos territórios e povos geralmente significavam perseguição à Igreja. Muitas igrejas foram fechadas, algumas congregações religiosas foram temporariamente suprimidas e o atendimento dos fiéis foi prejudicado.


e) Modelo teológico-eclesial: Séculos XVT (Concílio de Trento) ao XX (Concílio Ecuménico Vaticano II, 1962). Diante da complexidade do contexto mundial, a Igreja Católica adotou uma postura de fechamento e não de diálogo. As principais características de modelo teológico-eclesial foram: a auto­denominação da Igreja como uma "Sociedade Perfeita"; fora da Igreja não há salvação; vivência sacramental (principalmente a Eucaristia e a Penitência) como afirmação da fé; o culto a Maria; catequese como doutrinação; sermões caracterizados pelo moralismo; dogmas.


LINHA DO TEMPO


Passagem do feudalismo para o capitalismo
Absolutismo
Guerras de conquista
1492                Chegada dos europeus na América
Colonização e Evangelização da América
Renascimento
Passagem do teocentrismo para o antropocentrismo
Séc. XVI     Reforma Protestante
Contra-reforma Católica
Concílio de Trento
Humanismo / Direitos Humanos
                        Heresias / Inquisição
1760                Primeira Revolução Industrial
Unificação dos Estados nacionais
1769 a 1821    Guerras Napoleônicas
Nascimento de Gaspar Bertoni
1789 a 1799           Revolução Francesa
                      Liberalismo
1816                Fundação da Congregação dos Estigmatinos
Séc. XVIII      Iluminismo
1848                Contestação ao liberalismo
1853                Morte de Gaspar Bertoni
1860                Segunda Revolução Industrial

 

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